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Cuca, Daniel Alves e Robinho: o que nós, homens, podemos aprender destes casos?

Muito se fala das carreiras e dos valores gastos (ou perdidos) pelos condenados por crimes sexuais; enquanto isso, só no Brasil, duas mulheres são estupradas por minuto


Foto: Divulgação/Santos FC

Em uma semana de Data Fifa, na qual as seleções nacionais jogam, o assunto que tomou conta do futebol brasileiro foi a Justiça.

Robinho, condenado por estupro na Itália, começou a pagar a pena no Brasil. Daniel Alves, que há tempos está preso na Espanha pelo mesmo tipo de crime, terá a chance de sair da cadeia, caso pague a fiança de R$ 5,4 milhões.

Além desses dois casos, ainda há a volta de Cuca a uma equipe de futebol após sua curta e conturbada passagem pelo Corinthians. No clube paulista, o técnico paranaense encarou uma pressão jamais sofrida em toda a sua carreira, devida a uma condenação por estupro, na Suíça, na década de 1980. Após a extinção do processo, o treinador acertou com o Athletico recentemente. Depois da estreia, deu uma entrevista para dizer que vai “apoiar o combate à violência contra as mulheres”. Disse que estava falando “aquilo do coração”, enquanto lia um papel.

Mais do que a condenação por estupro e de estarmos falando de homens ligados ao futebol, os três casos têm outras semelhanças: as vítimas são praticamente esquecidas na cobertura jornalística, majoritariamente feita por homens, e pouco se discute o que podemos fazer para evitar novos casos no futuro.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a cada minuto, só no Brasil, duas mulheres são vítimas de estupro. E é sobre elas que nós, homens, devemos falar. É com elas que devemos ser solidários.

E quando digo isso, não quero lacrar ou “cancelar” quem quer que seja. Eu e você, que me lê neste momento, seja homem ou mulher, fomos criados em um mundo machista, misógino e que incentivou a objetificação feminina.

No entanto, nós, homens, temos o dever de pensar em meios de interromper tal ciclo. Um deles é não normalizar violências diárias, sejam verbais ou físicas. Sabe aquela coisa do “vai pilotar um fogão”, que a gente fala às mulheres no trânsito? Aquele assobio quando elas passam? Podem parecer coisas inocentes, mas não são e não podem mais acontecer.

Voltando ao futebol, o ambiente criado no esporte, desde a base até o profissional, historicamente, permite que violência contra o público feminino seja naturalizada. Não é à toa que jogadores, ex-atletas, técnicos e dirigentes se silenciam ou até protegem aqueles que são condenados. E, de novo, não se trata de cancelamento ou julgamento. Quem julga é a Justiça e foi ela que condenou os três citados.

Mas ao normalizarem, protegerem, ajudarem financeiramente, darem palanque, pagarem salários astrônomicos e não terem um discurso assertivo contrário à violência, eles colaboram para a perpetuação deste ambiente tóxico. Lembrando que todos podem ter uma segunda chance, mas também necessitam arcar com os seus erros. É assim que caminharemos para um mundo melhor.

E tal conscientização tem que ser feita já nas categorias de base, com profissionais qualificados e que não pratiquem atos de violência – sim, não são raros os casos de abusos contra os jogadores jovens também.

O lateral direito Danilo, sucessor de Daniel Alves na Seleção, deu uma bela entrevista na tarde desta sexta-feira, na Inglaterra, onde o Brasil enfrentará os donos da casa em partida amistosa. Cobrou os jogadores, assumiu a responsabilidade como influenciador, citou um exemplo em que as mulheres sentem mais medo do que os homens e até sugeriu que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) fizesse um trabalho com meninos, já na base.

Pensando nisso, a atuação da ONG Núcleo Espiral, que combate a violência há 15 anos e no qual os cargos de liderança estão com mulheres, torna-se ainda mais relevante.

Que a voz de Danilo se espalhe entre os homens. E que possamos ouvir mais mulheres, como a presidente do Palmeiras, Leila Pereira, primeira chefe de missão da Seleção Brasileira masculina de futebol. Precisamos, também, de mais mulheres narrando, comentando, escrevendo, enfim, dando opinião e suas visões de mundo. Assim, o Ipea, num futuro, talvez não traga números tão estarrecedores como os citados nesta coluna.


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