Violência não é destino

maio 10, 2022

Por Kika Salvi da SOFCA INTERNATIONAL

O Núcleo presta assistência a crianças e adolescentes vítimas de violência e em situação de vulnerabilidade.

Qual é o foco do trabalho?

Neusa Sauaia Nossa missão é desenvolver habilidades de resiliência através de um trabalho socioeducativo, que prepara a criança para a vida, com autonomia, para que ela possa romper o ciclo de violência. Utilizamos o método Espiral, que desenvolvi em minha tese de mestrado, com intervenções que ativam fatores de proteção e permitem reduzir os danos causados por abuso físico e emocional. O método melhora o desempenho pessoal e ajuda a criança a alcançar uma transformação.

Considerando que grande parte do abuso infantil é cometido por adultos, e sobretudo na própria família, não é esperar demais que a criança consiga se defender de um adulto? Que formas de autodefesa o método desenvolve?

NS Concordo, é esperar demais. Na realidade, a criança espera que o adulto seja exatamente aquele que protege, que cuida dela, e que não vai atuar com ela de forma violenta. É muito difícil ela conseguir se proteger do adulto que por base deveria cuidar dela. O que a gente faz é uma pedagogia da resiliência, é tentar ativar na criança aspectos como autonomia, autoestima, competência social, auto-percepção e crença no futuro, muito prejudicada pela violência. Quando começamos o trabalho, perguntamos às crianças como elas acham que vão estar daqui a cinco anos. Muitas respondem que vão estar presas, ou mortas. O futuro, para elas, é muito desesperançoso. Ao final do trabalho, elas se sentem mais importantes, mais otimistas, com uma atitude de eu vou conseguir fazer, de protagonismo, e isso muda a perspectiva de futuro. Paralelamente, damos palestras para as famílias, para oferecer suporte teórico ou emocional aos adultos. Isso permite transformar indivíduos em cidadãos mais respeitosos e respeitados, assim a violência não precisa aparecer.

O que significa dizer que o “trauma ficou no corpo”?

NS Significa que o trauma é em grande parte fisiológico. Ele fica impresso numa parte do cérebro, o sistema límbico, que não é cortical — ou seja, não é racional, não é intelectual, e você não consegue alcançá-lo através da fala. De nada adianta apenas conversar com uma criança sobre a violência que ela sofreu, até porque muitas vezes ela nem sabe como explicar isso em palavras. Claro que se ela tiver condições de se expressar, é muito importante ter um interlocutor que a escute. Mas o corpo registra tudo, e o trauma se manifesta a partir de dores, tensões, dificuldades fisiológicas etc. A gente não trabalha o abuso em si, mas a criança que sofreu a violência. É um trabalho de re-significação, de refazer as sensações do corpo que sofreu violência através da vivência com um adulto que vai ser acolhedor, respeitoso, com outra fala, outro toque. Assim, a criança pode transformar a relação com o corpo, pode descobrir que ele não é só para apanhar, mas que está ligado à vida, ao prazer, e não ao medo, à dor, ao desprazer. A partir de uma experiência positiva com os adultos do núcleo, a criança que foi abusada por um adulto, negligenciada, mal-tratada, consegue fazer um resgate de vínculos positivos, de segurança, confiança, de crença no ser-humano.

Pode dar um exemplo de como a intervenção terapêutica é feita?

NS Não separamos os grupos pelo tipo de abuso que sofreram, nós os dividimos por faixa etária e fase do desenvolvimento. Todas as atividades começam com o corpo. Por exemplo, propomos de criar um grupo de personagens, o que dá à criança a possibilidade de inventar uma identidade que pode ser muito útil para ela em termos simbólicos. As crianças criam as regras para esse grupo, o que pode e o que não pode, e elas sabem exatamente o que querem. Nesse momento, elas deixam de ser vítimas e se tornam protagonistas do que elas fazem no grupo. Elas escolheram que seria um grupo de animais, e cada uma seria um bicho. Uma menina que tinha muita dificuldade visual, por exemplo, escolheu ser uma coruja. Olha o simbolismo disso! Tem outra atividade que é a amarração das pernas das crianças. Nós as amarramos, e elas têm que mexer as perninhas até se soltarem da corda. Claro que não apertamos muito, justamente para elas conseguirem se soltar. Elas adoram essa atividade, pedem para ser amarradas de novo.

E o que essa atividade possibilita?

NS Pense na experiência somática de luta, fuga ou congelamento diante do perigo. Ao se desamarrar sozinhas, essa atividade possibilita que elas façam a fuga que não conseguiram fazer nas situações de violência. Nela, elas completam a ação que foi impedida de ser completada. É um processo de fortalecimento das habilidades sócio-emocionais, que minimiza os efeitos da violência sofrida e previne que ela se reproduza.

Como é o trabalho de prevenção da violência com as famílias das crianças e adolescentes que participam do núcleo?

NS Consideramos que todos aqueles que têm contato com as crianças, direto ou indireto, são cuidadores. Todos têm importância no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças — famílias, técnicos, merendeiras e funcionários em geral. Todos passam por uma formação antes de interagir com as crianças. No caso das famílias, focamos em prevenção da violência. Trabalhamos com pais e mães para identificar um comportamento violento, para dar suporte e informação sobre as fases do desenvolvimento da criança, por exemplo. Eles precisam entender sua responsabilidade como pai, como mãe, porque não assumir isso também é uma forma de violência. A partir do momento que eles têm conhecimento dos danos que a violência causa, eles têm uma escolha.

Quais são os critérios para saber que a criança melhorou? É feita uma avaliação de resultados?

NS Nós fazemos um monitoramento de resultados com gráficos de todos os índices observados. As respostas aos mesmos desenhos feitos por elas no começo do processo, por exemplo: em vez de responderem que em cinco anos estarão presas, ou mortas, elas dizem que vão estar estudando, fazendo amigos. Temos uma equipe que trabalha direto com as crianças, e outra com os adultos. Para as crianças, pedimos o desenho humano, trabalhamos com massinhas de modelar e questionários para identificação de violência. Pedimos para desenhar o bairro onde moram e dizer quais lugares são perigosos e quais são seguros. Elas dizem que o bar é perigoso porque há bêbados, e que a escola e a igreja, por exemplo, são seguras. Elas aprendem a identificar risco, e isso é muito informativo para elas. O que mais muda é a autonomia e a competência social. No começo, as crianças batem umas nas outras, fazem bullying, e ao final do trabalho a convivência é muito mais harmoniosa, mais respeitosa.

Com os adultos, fazemos um questionário sobre o que eles entendem como violência. Muitos não sabem que gritar com os filhos, ou chamá-los de burro, é uma forma de violência e pode ser muito prejudicial. Alguns índices que observamos são pais com atitudes menos violentas do que antes, com mais consciência, discriminação e um nível maior de responsabilidade pelo desenvolvimento da criança. Ensinamos sobre as fases do desenvolvimento, sobre o que esperar de cada fase, que uma criança de quatro anos é muito diferente de uma de dez, e que a responsabilidade de defendê-las é do adulto.

 

Falando em ciclo de violência, é comum a ideia de que crianças que sofreram abuso reproduzem a violência. O que você acha disso?

NS Dizer que a pessoa está reproduzindo a violência que sofreu é uma simplificação muito grande. Todos temos um lado sombrio. A violência atua dentro de nós ativando esse lado, e esse “daemon” sai por aí abusando as pessoas. A pessoa está na verdade fazendo aquilo que foi ativado dentro dela porque não sabe fazer diferente. Nosso trabalho é justamente o de despertar protagonistas transformadores de histórias individuais e coletivas.