Oficinas de direitos humanos como um espaço de acolhimento e transformação

fev 15, 2018

Escrito por Jessica Blanco, facilitadora do programa Proev

 

O Comitê de Enfrentamento da Violência é um dos projetos realizados pelo Núcleo Espiral conduzido através do Programa de Estudo sobre Violência – PROEV, e tem como objetivo promover discussões e reflexões sobre os direitos humanos com crianças e adolescentes. Além disso, o intuito principal do Comitê é tornar os participantes do grupo multiplicadores dos direitos humanos dentro de seus bairros, repassando os ensinamentos e reflexões para familiares, amigos e a comunidade em geral.

No ano de 2017 o Comitê foi realizado em duas Instituições parceiras que trabalham no contraturno escolar (chamados CCAs – Centro para a Criança e Adolescente). Para elucidar o trabalho realizado pela nossa equipe durante o ano, será destacada a trajetória de uma das integrantes e sua participação no grupo.

Camila[*] começou a participar do Comitê no segundo semestre de 2017, direcionada ao grupo pela coordenação da instituição. A princípio, as facilitadoras foram alertadas para o fato de que a jovem tinha dificuldades de interação e vivência em grupo, em decorrência de episódios de bullying que a mesma vivenciava em sua escola.

Segundo Lopes (2005), “o bullying é caracterizado por atos repetitivos de opressão, tirania, agressão e dominação de pessoas ou grupos que se julgam superiores a outras pessoas ou grupos”. Além disso, o bullying pode incluir chamar por nomes, debochar, chutar, bater, aterrorizar, rejeitar, ignorar, humilhar, intimidar, discriminar, entre outras ações extremamente agressivas.

No caso de Camila, as agressões eram verbais e se intensificavam à medida que ela se excluía dos demais alunos, com intuito de se defender das ofensas frequentes. Robim (2008) afirma que agressões verbais podem se dar através de apelidos, insultos, comentários racistas e homofóbicos e diferenças religiosas, socioeconômicas, culturais, física, morais e políticas.

Ao final do primeiro dia de grupo da adolescente, ela relatou sua história para uma das facilitadoras. A jovem contou que os episódios de bullying eram incessantes e que por conta do grande sofrimento ela chegou a se automutilar, fazendo cortes em seus punhos. Em decorrência desses fatos ela estava realizando acompanhamento em um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).

Coincidentemente, a temática trabalhada pelo Comitê no encontro seguinte foi o direito à diferença. Assim, as facilitadoras, entre todas as atividades trabalhadas naquele dia, apresentaram um vídeo que ilustrava esse tema. Após a apresentação da mídia, Camila dividiu com o grupo suas experiências com o bullying, alegou que as agressões verbais que ela sofria tinham um efeito negativo em sua autoestima, pois a ridicularizavam e a envergonhavam.

De acordo com Middelton-Moz & Zawadski (2007), os sujeitos que são constantemente violentados, independente da forma, caracterizam-se por um comportamento social inibido, passivo ou submisso. Estes adolescentes costumam sentir vulnerabilidade, medo, vergonha, e pincipalmente, uma autoestima cada vez mais baixa. Dessa forma, a exclusão social e o isolamento se tornam uma forma de defesa dessas vítimas, estratégia que Camila utilizou para se proteger.

A jovem também comentou que os autores das agressões a apelidavam com nomes pejorativos e debochavam de suas reações. Todas as tentativas de sair desse ciclo de violência eram falhas, até mesmo quando Camila denunciava as agressões para professores e diretores de sua escola não obtinha sucesso, uma vez que esses profissionais em diversos momentos culpavam a vítima e suspeitavam da veracidade de suas queixas.

Após os relatos de Camila, o grupo do Comitê de maneira unânime se solidarizou ao sofrimento da colega e a acolheram, negando tudo que era dito a ela pelos agressores, e principalmente, defendendo o direito dela e de todos de ser diferente. Os adolescentes passaram a aconselhá-la a buscar meios para que saísse do ciclo de violência que lhe causava tanto sofrimento. Seus colegas também formaram uma rede de apoio, pois alguns participantes do grupo que frequentavam a mesma escola que Camila se disponibilizaram a estender os laços afetivos com ela para além do Comitê, na tentativa de protegê-la das agressões na escola.

De modo geral, o grupo se mostrou muito acolhedor e se propôs a ajudar a colega sem objeções, compartilhando as próprias experiências de bullying e buscando soluções em conjunto para superar as vivências de extrema violência na escola. O ambiente proporcionou momentos de acolhimento e empatia que fizeram total diferença na criação do vínculo com a nova participante, que em seu segundo dia de Comitê já estava totalmente integrada ao grupo. De acordo com Pichon-Rivière (1994), o vínculo é uma estrutura complexa que inclui um sujeito, um objeto, e sua mútua inter-relação com processos de comunicação e aprendizagem. Dessa forma, o vínculo foi de extrema importância na formação do grupo e na resolução e obtenção dos objetivos traçados pelo mesmo.

Com o passar do tempo, Camila se tornou ainda mais participativa nos encontros do Comitê e essa mudança de comportamento também se fez presente no meio escolar. Segundo a própria adolescente seus problemas com o bullying foram se tornando secundários até que se extinguiram. Ela conseguia lidar melhor com suas diferenças e assim conseguia se aceitar e consequentemente ter uma visão mais positiva sobre si mesma. Também de acordo com o seu relato os problemas entre os alunos de sua escola continuaram, mas isso já não tinha mais tanto efeito sobre ela, pois não sentia mais o desejo de se excluir e se machucar.

Em geral, casos como o da Camila nos fazem perceber a importância das discussões acerca dos direitos humanos com crianças e adolescentes, e demonstram a relevância da representatividade do trabalho de enfrentamento da violência a partir dos direitos humanos. As reflexões sobre essa temática têm consequências incalculáveis na vida de crianças e adolescentes, que vão além do conteúdo burocrático desse tema. Assim, o conhecimento sobre um conteúdo que deveria ser de livre acesso a todos, se transforma em acolhimento e empatia, como uma forma de amenizar a dor de quem sofre injustamente.

Em suma, o conhecimento sobre os direitos humanos pode auxiliar também nas resoluções dos conflitos diários que esse público sofre em decorrência das desigualdades sociais e em situações de violência, como a vivenciada por Camila, uma vez que ressignificam o aprendizado e as relações sociais através do conhecimento e da empatia presente no trabalho em grupo.

 

 

Referências Bibliográficas

LOPES, A. A. N. (2005). Bullying – Comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria, 81(5), 164-172.

Middelton-Moz, J., & Zawadski, M. (2007). Bullying – Estratégias de sobrevivência para crianças e adultos (R. C. Costa, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 2002).

PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994

ROLIM, M. (2008). Bullying: O pesadelo da escola, um estudo de caso e notas sobre o que fazer. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

 

[*]Usaremos nome fictício