Oficinas de construção de bonecas Abayomi com famílias: Estreitando nós em um contexto de prevenção à violência

maio 8, 2018

Texto escrito por Maria Rios Lima e Maysa Napolitano Machado, facilitadoras do Programa Apoiar

 

Uma das frentes de atuação do Projeto Apoiar no Núcleo Espiral é a realização de encontros com as famílias das crianças e dos adolescentes atendidos nas instituições com as quais temos parcerias, como uma forma de problematizar a temática da violência, buscando sua prevenção e também o acolhimento desses familiares, viabilizando um espaço de troca e fala. Ao estudar opções de oficinas que poderíamos conduzir nesses encontros, encantamo-nos com a possibilidade de construirmos bonecas Abayomi nas oficinas, entendendo que tanto a confecção em si já pode ser transformadora, como também a possibilidade do espaço para diálogo de temas importantes em nossa prática, como a resiliência, preconceito, intolerância, resistência, entre outros.

Historicidade, as bonecas e seus símbolos

As mães africanas, durante as viagens nos navios negreiros que transportavam escravos da África para o Brasil, procuravam acolher seus filhos rasgando retalhos de suas saias e disso criavam pequenas bonecas, feitas de pano e nós.

Essas bonecas simbolizavam proteção e era um amuleto nesse contexto de sofrimento e violência. Elas ficaram conhecidas como Abayomis, termo de origme iorubá, falado majoritariamente na Nigéria, Benin, Togo e Costa do Marfim. Abayomi significa “encontro precioso” (abay – encontro, omi – precioso) e pode trazer como símbolo a proteção e a alegria.

Favorecendo o reconhecimento das diversas etnias africanas, as bonecas não possuem demarcação facial (olhos, nariz, boca, orelha), nem mesmo costuras (são feitas apenas de nós e tranças). O propósito, em diversos contextos em que são confeccionadas, nos parece convergentes: acalentar a quem se presenteia, vinculando assim sua proposta como uma atividade de desenvolvimento social e manifestação da riqueza cultural que a conexão Brasil e África proporciona.

Lena Martins, pioneira no assunto Abayomi no Brasil, é educadora popular e militante do Movimento das Mulheres e liderou a confecção das bonecas no Brasil em meados de 1980, mesma época em que o Movimento Negro se mobilizava e organizava a marcha para recordar os 100 anos da abolição da escravatura. O objetivo de Lena era fazer dessa arte popular um instrumento de resistência e conscientização racial e social. Esse trabalho fez muito sucesso e devido a grande aceitação e procura foi criado em 1988 a Cooperativa Abayomi, no Rio de Janeiro, equipamento que objetiva fortalecer a identidade afro-brasileira, promoção da autoestima e socialização do indivíduo.

A confecção das bonecas Abayomi têm sido retomada em diversos contextos, como coletivos de artistas (SILVA, 2009), em escolas e cursos de formação de professores (COUTINHO; RUPPENTHAL, 2016), com diferentes intuitos: empoderamento feminino, resgate das tradições africanas, resistência negra, inserção do multiculturalismo na formação de professores, entre tantos outros. Com a confecção desta boneca, tem-se um mote para contribuir na discussão sobre a “cultura de paz”, o respeito e a valorização da pluralidade cultural na formação da identidade nacional, mostrar que a criatividade e a simplicidade, como a confecção de bonecas de retalhos, podem auxiliar no processo lúdico de desenvolvimento do indivíduo e, ao mesmo tempo, fazer uma crítica ao consumismo (COUTINHO; RUPPENTHAL, 2016).

Uma vez definida a atividade, partimos em busca dos tecidos e retalhos que seriam utilizados. Mergulhamos na proposta também com nossos temores, fazendo tentativas de definir os melhores tecidos, os tamanhos das tiras, treinando algumas opções, estreitando os nossos nós: com nosso brincar, nossas origens, com as famílias que estávamos a ponto de conhecer e com a equipe do Núcleo Espiral.

As oficinas com as famílias

Foram três oficinas em instituições diferentes, somando, ao todo, mais de cem familiares participantes. Não surpreendentemente, a resiliência foi o termo mais recorrente que surgiu nas discussões promovidas nesses encontros.

Resiliência é um termo que foi apropriado pelas ciências humanas, tirado do conceito da física que se refere a uma propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão (HOUAISS, 2018). Sendo assim, para a Psicologia, a resiliência seria uma capacidade universal que permite que uma pessoa, grupo ou comunidade previna, minimize ou supere os efeitos nocivos das adversidades (GROTBERG, 1995, p. 7).

O que podemos pensar, articulando esse conceito com o que desejamos levar nas oficinas com as famílias, era exatamente isso: diante do sofrimento, muitas vezes inerente, seja pelo contexto de vida, constituição do sujeito e estrutura familiar, é possível ainda buscar recursos para elaborar perdas, violência e dor. As bonecas surgem exatamente no contexto da adversidade e da violência, capaz de estimular a adaptação e enfrentamento psíquico dos traumas.

A resiliência, assim, é um processo dinâmico, que vai sendo vivida pelo sujeito a partir das circunstâncias e experiências particulares, levando em conta o ambiente e a trajetória.

A oficina que propomos fundamenta-se como rede de proteção e promotor de resiliência, na medida em que essas famílias, instrumentalizadas por nós com poucos recursos, foram capazes de construir lindas bonecas e pensar no que elas representariam em seus cotidianos. Garantindo na reflexão uma troca extremamente enriquecedora e frutífera.

Além da questão da resiliência, a confecção das bonecas também evoca e mobiliza nas pessoas questões como as diferenças e o preconceito. Não apenas do preconceito racial – sendo que as bonecas representam um forte movimento de resistência e legitimação da cultura negra – mas de todas as formas de preconceito que surgem da não aceitação das diferenças. Nas oficinas, era interessante observar a constante comparação entre as bonecas:

“a minha ficou feia” Ana[1], 28 anos

“a que eu fiz antes estava muito magrela” Juliana, 34 anos

“essa é piriguete” Betanea, 26 anos

“quero a minha bem comportada” Lucinete, 32 anos

Pudemos observar que o resultado final era sempre diferente: havia bonecas de diversos tamanhos, loiras, de cabelos negros trançados. Uma delas era branca. E, dentre todos os participantes, dois fizeram bonecos, o que propiciou a possibilidade de reflexão sobre os papéis de gênero.

Uma das coisas que mais nos marcou foi a forma como a boneca de nós acabou servindo para estreitar nós em diversos âmbitos: dos participantes com seu passado, de cada um deles com seus filhos/netos, e dos participantes entre si, enquanto rede e possibilidade de apoio mútuo, mais uma forma de nós.

– Estreitando nós com o passado:

Nas discussões que aconteceram após a confecção das bonecas, foi muito frequente que os participantes se remetessem às suas próprias infâncias, trazendo uma conotação afetiva muito positiva, apesar do reconhecimento das dificuldades:

“Minha avó fazia essas bonequinhas para mim” Joana, 51 anos

“Nossa, eu me lembro das minhas bonequinhas de pano”  Luiza, 38 anos

“Isso me fez lembrar da minha mãe, que fazia boneca para mim” Marilice, 27 anos

“Lá na roça, a gente não tinha boneca, então a gente pegava espiga de milho e vestia com uns panos, bem assim, e fazia as bonequinhas” Marinalva, 58 anos

Este tipo de resgate pareceu emocionar muitas das pessoas envolvidas, abrindo espaço para uma experiência de brincar mais efetiva, depois de tanto tempo.

– Estreitando nós com os filhos/netos

Outro assunto que surgiu fortemente nas discussões foi a importância do brincar entre pais e filhos, como uma forma de fortalecer o vínculo e de criar um ambiente mais acolhedor. Uma das falas foi muito significativa:

“A gente chega em casa tão cansada, que é mais fácil colocar um celular na mão da criança para ela não perturbar, e a gente acaba não brincando com eles” Camila, 34 anos

Brincar é uma atividade essencial no desenvolvimento da criança e no fortalecimento nos vínculos. É pela via do brincar que a criança desfruta de sua personalidade de forma integral, expressando seus conflitos e angústias e buscando formas de elaboração (WINNICOTT, 1975). E, quando falamos de saúde psíquica não estamos falando em ausência de conflitos, mas na capacidade de lidar com eles!

– Estreitando nós entre as famílias

Ao longo das oficinas, os participantes foram se agrupando em pequenos grupos, em que compartilhavam materiais e se ajudavam na confecção das bonecas. Pudemos observar que famílias que por vezes não se conheciam, trocavam ideias e observavam os trabalhos uns dos outros. Os próprios reconheceram a importância da empatia em ajudar o outro e compartilhar a própria experiência que a atividade propunha.

Para finalizar, damos a palavra a duas pessoas: um teórico da Psicologia, e uma das senhoras que participou da oficina:

O mundo constituído por coisas, que são memória presentificada e abertura para o ethos, permite que o ser humano se reencontre em cada uma delas por meio do tocar, do olhar e de seu convívio com elas. As coisas preservadas em sua ontologia curam o homem (SAFRA, 2004)

 “Eu quero um mundo com menos violência para o meu neto. Eu não sei se estou falando certo, mas se a gente tem violência dentro de casa, como é que vai fazer?” Rosa, 56 anos

 

 

Referências Bibliográficas

COUTINHO, C.; RUPPENTHAL, R. Cultura e Educação Científica: alternativas para a inserção do multiculturalismo na formação inicial de professores. Revista Signos, vol 37, n 1, 2016.

SAFRA, G. A pó-ética na clínica contemporânea. Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2004

SILVA, S. M. Experiência Abayomi> Coletivos, ancestrais, femininos, artesaniando empoderamentos In: Anais V Enecult – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil 2009

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975

HOUAISS, A.; VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

VIEIRA, K. Bonecas Abayomi: símbolo de resistência, tradição e poder feminino. In: http://www.afreaka.com.br/notas. Acesso em 28/04/2018

GROTBERG, E. H. Introdução: Novas tendências em resiliência. In: MELILLO, A; OJEDA, E. N. S. e cols. Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas. Porto Alegre: Artmed, 2005. p.15-22.

 

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[1] Todos os nomes foram alterados para a preservação da identidade dos participantes