O trabalho corporal em oficinas socioeducativas

dez 4, 2017

Escrito por Ana Cecília Pagliarini de Souza, coordenadora do Programa Retocare

 

Um diferencial do trabalho do Núcleo Espiral com crianças e adolescentes é o trabalho corporal realizado nas Oficinas Socioeducativas, em Instituições que trabalham no contraturno escolar, a partir de atividades que permitem o toque e estimulam o contato da criança com o próprio corpo.

O trabalho corporal aparece como um dos cinco pilares do Método Espiral, desenvolvido como forma de trabalhar a prevenção e a redução da violência física e emocional.

A psicoterapia de orientação Junguiana com foco corporal, desenvolvida no Núcleo, dá ênfase aos recursos e às capacidades criativas e transformadoras da criança como um todo, no que diz respeito a si própria e à sua relação com o outro. Segundo Sauaia (2003) essa proposta utiliza a visão finalista pontuada pela teoria junguiana somada à perspectiva de trabalho descrita nas pesquisas sobre resiliência com o intuito de focalizar, prioritariamente, os fatores de proteção mais do que os fatores de risco.

Sauaia ainda acrescenta que os encontros com as crianças e adolescentes são programados com a intenção de trabalhar uma ou mais partes do corpo, ampliando a consciência corporal, de forma que existe um permanente olhar para o corpo dos participantes, observando suas expressões, tensões e recursos.

Segundo Byington (1988), é por meio do corpo que há estruturação simbólica da consciência, a partir da descoberta de suas características e limitações. Descreveremos, a seguir, uma atividade realizada pelo Programa Retocare[1] do Núcleo Espiral para trabalhar o corpo durante os encontros em grupo.

A atividade chamada de “Contorno Corporal” recebe esse nome, pois se constitui de toques sutis que vão dos pés à cabeça, passando como um contorno em todo o corpo. A partir do quarto encontro, dentre os onze realizados em grupo, os facilitadores propõem para as crianças e adolescentes a finalização do grupo com o contorno corporal, dizendo a eles que se trata de uma forma de relaxamento, que vai muito além da finalidade propriamente dita. O contorno aparece sim como uma prática de relaxamento do facilitador para a criança, como uma maneira de “acalmar os ânimos”, mas sabe-se que o toque, contato pele a pele, traz inúmeros benefícios para aqueles que realizam essa troca.

O momento em que é feito o toque, inicialmente pelos pés e subindo aos poucos até a cabeça, permite que a criança que está recebendo tenha uma experiência de sentir-se cuidada que pode ser de fundamental importância para o desenvolvimento psíquico daquela que esta ali. Sabe-se que o primeiro contato da criança com o mundo é registrado em sua pele, segundo Montagu (1988, p.21):

A pele é o maior órgão, mais antigo e sensível de todos os órgãos. É o nosso primeiro meio de comunicação, nosso mais eficiente protetor. É na pele em que se projetam experiências da vida. Por onde emergem as emoções, penetram os pesares, a beleza encontra sua profundidade.

Segundo Comfort (2015) é no corpo que ficam registradas as experiências negativas e positivas da vida, até as vivências de um bebê, em seus primeiros dias de vida, tais como fome, sede, desconforto, provocarão reações que, somadas às respostas que a mãe ou seu cuidador lhe der, terão cargas emocionais diferentes, estruturando sua maneira de se relacionar com o mundo.

Considerando que nas oficinas o toque é realizado em um ambiente protegido, respeitando os limites impostos pelas crianças o toque sutil utilizado no contorno corporal aparece também como uma possível ferramenta de ressignificar alguma agressão que a criança possa ter sofrido. Na medida em que o corpo recebe toques sutis, da maneira em que se sente confortável, com os olhos fechados ou abertos, permite-se que a experiência com o corpo possa ser vivida de forma segura e acolhedora.

Segundo Neumman (1991), a experiência corporal é fundamental no processo de desenvolvimento, pois é a partir dela que o ego se estrutura, e com a possibilidade do contorno corporal acontecer em um grupo socioeducativo em um contexto de grande vulnerabilidade social, busca-se que experiências seguras com o corpo possam acontecer sob o olhar de nossos facilitadores.

A ideia de o contorno iniciar no quarto encontro consiste no fato de que, após um encontro individual e quatro encontros em grupo, a criança/adolescente pode aceitar melhor aquele adulto que está propondo a atividade, mas deixa a critério de quem irá receber aceitar ou não o toque.

Percebe-se que as crianças que já fizeram parte do núcleo espiral em outro semestre mostram-se mais confortáveis ao passar pelo contorno no segundo ou terceiro semestre, sugerindo a ideia de que se tornam mais vinculadas com os facilitadores que os acompanham e conseguem atingir um relaxamento mais profundo e se entregam mais na atividade, o que nos traz a hipótese de que com isso atingimos um dos objetivos de ressignificar vivências de violência e uma boa aceitação de toques sutis dirigidos.

Naquelas crianças que demonstram algum desconforto com os toques realizados, o facilitador não segue com a atividade, a fim de não reproduzir qualquer forma de violência e respeitar os limites impostos por crianças e adolescentes. O facilitador também sugere uma abertura caso a criança queira conversar ou caso queira tentar receber o contorno corporal em outro momento. Tomando os devidos cuidados que o toque sutil faz necessário.

Julia Riccheti, facilitadora do programa Retocare traz para nós sua visão e experiência sobre o contorno corporal:

Notei que é uma atividade totalmente diferenciada. No início fiquei receosa, pois contato físico é algo que, às vezes, não é bem recepcionado. Ainda mais por quem convive diariamente com violência. Porém, me surpreendi. No meu grupo não teve nenhuma criança que se incomodou, muito pelo contrário. Elas amaram! Acabam deixando de lado a agitação e conseguem relaxar. Além disso, ficam ansiosas por esse momento, e quando não dá tempo de realizar o contorno que fica para o fim das atividades do dia, elas se entristecem. É uma atividade simples, mas que nitidamente, possui uma ligação afetiva importante. Algo que mexe no âmago delas e vai além. Tenho a impressão que, de alguma forma, esse simples exercício terá reflexos no futuro de cada criança.

Acreditando que vivências de violência podem ganhar outro significado a partir de um contato diferenciado, que seguimos nossas atividades, buscando tocar no sentido literal e também no sentido de deixar marcas para que outras gerações também possam se beneficiar do que esta sendo mobilizado a cada encontro e a cada toque.

Sendo assim, a abordagem feita privilegia o corpo enquanto símbolo, trabalhando como uma modalidade particular de tratamento no atendimento a grupos de crianças vítimas de violência, possibilitando a resignificação do próprio corpo e também da relação da figura de um adulto, que pode ser representada por um facilitador em nossas atividades.

 

Referências

BYINGTON, C. Dimensões simbólicas da personalidade. São Paulo: Ática, 1988.

COMFORT, Amana P. M. et all. Resiliência e trauma: experiências de um trabalho com crianças e adolescentes na abordagem analítica. In AMORIM, Sandra; NEUMANN, Marcelo M. (org.) A violência na contemporaneidade: o olhar da psicologia junguiana. São Paulo: CRV, 2015.

MONTAGU, A. Tocar: o significado humano da pele. 7. Ed. São Paulo: Summus, 1988.

NEUMANN, E. A criança. Estrutura e dinâmica da personalidade em desenvolvimento desde o inicio de sua formação. São Paulo: Cultrix, 1991.

SAUAIA, N.M. L. Psicoterapia de Orientação Junguiana com foco corporal para grupos de crianças vítimas de violência: promovendo habilidades da resiliência. Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Psicossomática e Psicologia Hospitalar do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica. São Paulo, 2003.

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[1] O Retocare é um dos programas do Núcleo Espiral, ao lado do Apoiar, Aprove e Proev. É responsável por conduzir atividades socioeducativas com crianças e adolescentes das instituições de atuação da ONG, como CCAs (Centro para Criança e Adolescente, em contraturno escolar), SAICAs (instituições de abrigo para crianças e adolescentes) e MSEs (Medida Socioeducativa para adolescentes egressos da fundação casa).