Empatia, o exercício de ver e ser visto

out 23, 2018

Artigo escrito por Priscila Ota, facilitadora do programa Retocare do Núcleo Espiral

 

Dentre os programas do Núcleo Espiral está o Retocare, no qual existe um projeto em que são oferecidas oficinas socioeducativas às crianças e adolescentes matriculados nos CCAs – Centro para a Criança e Adolescente –, objetivando promover a resiliência, um dos pilares do Espiral. Trata-se de encontros semanais, com ciclo semestral, coordenados por dois facilitadores, e com a participação de algumas crianças sugeridas pela instituição as quais acreditam que se beneficiariam de um olhar e acompanhamento mais próximo.

Este artigo traz testemunhos de processos vividos por alguns desses jovens participantes dessas oficinas, como poderemos ver a seguir.

Marta

Para ilustrar o tema, poderíamos elencar diversos momentos compartilhados nos encontros, mas iremos com um caso específico que nos traz as mudanças ocorridas na criança durante as atividades do período.

Trata-se de Marta (nome fictício), uma criança de 11 anos que iniciou o semestre com atitudes e maneiras de pensar que não refletiam um autocuidado seguro, refletido e atento, para si mesma e/ou para com os outros, o que poderia influenciar seus caminhos e escolhas futuras.  Possuía uma postura erotizada, pouco comprometida e dedicada nas atividades, apresentando poucas reflexões e paciência/tolerância, seja no lidar com o outro ou com as adversidades dos encontros.

No entanto, no decorrer do semestre, nas conversas com os facilitadores e na interação com as outras crianças, ela apresentou progressivamente outro posicionamento. Além do maior comprometimento com o grupo, aumentou sua tolerância e olhar cuidadoso para consigo e com o grupo, trazendo resoluções mais inclusivas e aspectos emocionais pessoais para compartilhar com as outras crianças e/ou apenas com os facilitadores.

Em um dos dias, num dos últimos encontros, o tema que estava sendo trabalhado era justamente o da empatia. A atividade consistia em as crianças encenarem algumas situações com conotação de bullying, dificuldades emocionais ou de inserção social, previamente escolhidas, e sugerirem alguns desfechos possíveis, pensando e sentindo com o corpo sobre o que acabaram de vivenciar. E ela, já sendo outra em relação ao começo do semestre, apresentou com sensibilidade e atitude cuidadosa reflexões e desfechos para as cenas.

Por exemplo, na situação em que algumas crianças estariam cochichando, olhando e apontando para uma outra criança que passava por perto, sugerindo que lhe falavam mal, Marta expressou fisicamente e verbalmente o incômodo com a situação, afirmando que se sentiria mal em ser o alvo das falas, e questionou a necessidade dos colegas de terem tal postura, afirmando não ser certo.

Em outra cena, na qual uma criança com comprometimento visual grave gostaria de brincar com seus pares, as crianças sugeriam interações, mas sem considerar as dificuldades de inserção na brincadeira. Marta, no entanto, propôs uma atividade que previa uma inclusão e que atendia também à criança com deficiência visual, de maneira que todos pudessem conduzi-la na dinâmica do grupo.

Pode-se perceber também, a partir de sua produção gráfica, realizada no começo e final de semestre, a questão de dar e receber afetos, abrindo um campo de elaboração e influenciando sua percepção do mundo, mais ou menos afetivo, acolhedor e empático, e sugerindo as transformações em seu desenvolvimento no decorrer do semestre.

Além dessas contribuições em grupo, posicionando-se e comprometendo-se mais, Marta também passou a compartilhar conteúdos pessoais como questões, dúvidas, sentimentos e sonhos que possuía.

 

Empatia

Nas atividades realizadas com as crianças e os adolescentes no Espiral, utiliza-se como recurso o aspecto lúdico, assim o brincar, os jogos e as atividades artísticas e corporais estão presentes criando um ambiente envolvente e interessante para que o encontro do dia, com uma temática pré-definida, possa acontecer.

Pincelando um pouco sobre o desenvolvimento infantil, vemos com Fordham (1994) e Gomes (2017), que o brincar permite a expressão dos estados emocionais e é um espaço potente de elaboração de conteúdos. Como a criança se relaciona e apresenta uma comunicação mais a nível corporal que verbal, em relação ao adulto, é importante que seus cuidadores possam se relacionar com elas de maneira correspondente, contribuindo para a promoção da sensação de segurança, ajudando-a em seu processo de amadurecimento e entendimento de si e do mundo.

Vale ressaltar, também, que um dos focos do Núcleo Espiral é o desenvolvimento da resiliência. Nesse sentido o espaço é apresentado de modo à criança ser reconhecida, incluída, respeitada e ir encontrando seus recursos internos para lidar com as adversidades.

E, encontrando seus próprios recursos, aproxima-se de suas potencialidades, diferenciando-se enquanto indivíduo, e entendendo seus contornos, habilidades e limites. Mas não só, também, e para que tal processo ocorra, é fundamental que o contato com o outro seja presente, pois é nessa troca que as mudanças e o desenvolvimento encontram lugar de expressão.

Quando olhamos para os desdobramentos de Marta percebemos como o processo de empatia foi cada vez mais manifestado em sua vida, fazendo emergir aspectos seus em relação a si mesmo e aos outros, e que só poderiam ter se dado a partir das relações. Pereira (2014), por exemplo, traz a discussão da empatia dentro da perspectiva analítica e cita que Jung entende empatia como “‘sentir junto’, uma vinculação inconsciente, [em] que alguns aspectos podem ser trazidos à consciência, tratando-se de um manejo que não se reduz a técnica ou a vontade”, e que está relacionada à dinâmica das relações. Ainda, nesse contato, há uma natureza de descentralizar-se do próprio ego para poder estar com o outro e, ao mesmo tempo que se abre esse campo, abre-se também a possibilidade de se ser empático consigo mesmo e com o outro que está contido em si.

Pereira também menciona que, para Jacoby, agir empaticamente é estreitar e reconhecer as fronteiras do eu e do outro, mas, alerta que não se pode perder de vista a diferenciação da própria consciência, caso contrário poderá levar a uma distorção da realidade e dos limites/fronteiras mencionadas. Ele também traz o questionamento do quanto que essa relação de fato é empática ou se é fruto de projeções e fantasias de quem empatiza.  Nesse sentido acompanhar Marta nas atividades e conversas que buscava ter com os facilitadores, sugere que tal relação contribuiu para uma ampliação do mencionado em relação a ser empático consigo mesma e a perceber mais discriminadamente sua realidade e escolhas.

A importância do aspecto empático também é mencionada na pesquisa de Olsen (2016) sobre a relação da vítima e agressor em casos de bullying. Ela nos conta que o bullying, atitude relacionada a atos de violência física, verbal e psicológica, é excludente e desagregador. É uma agressão que gera sentimentos de raiva, baixa autoestima, prejuízos nas relações interpessoais, entre outros agravamentos com grande sofrimento psíquico.

O que chama atenção – e não é tão conhecido – é que nesse contexto todos os presentes, a vítima, o agressor e as testemunhas, sofrem e podem ter o seu  desenvolvimento global prejudicado a curto, médio e longo prazo caso não sejam realizadas intervenções adequadas.

Sua pesquisa também comenta que “o comportamento violento é motivado por valores competitivos e individualistas, em detrimento aos direitos humanos”, e sugere que o desenvolvimento da empatia seria fundamental para reduzir os casos de bullying. Como consequência, Olsen sugere que um trabalho com práticas pró-sociais, e no qual a criança estabeleça um relacionamento com aceitação amorosa e inclusiva, pode contribuir na revisão de sentimentos de inadequação, culpa, inferioridade ou deficiência.

O trabalho de Olsen não apenas traz luz à atividade descrita no início deste texto, acerca do bullying, como faz entender o quanto Marta amadureceu nesse tempo. Além do já mencionado, podemos citar sua aproximação a uma outra criança, que antes mantinha olhares desconfiados e contato evitativo, com a qual passou a conversar e a realizar atividades juntas, e à situação em que uma criança nova entrou para o grupo e foi sendo vista com certa depreciação por algumas crianças, mas que tal comportamento de seus colegas foi recebido com incômodo e desaprovação por parte de Marta.

Assim, embora o tema seja exemplificado com um caso específico, é importante reforçar que as mudanças, por menores que sejam, reverberam no coletivo como um todo. Por exemplo, a dinâmica do grupo em algum nível se modificou, fruto também dos desenvolvimentos de Marta e do desabrochar de suas “novas” forças e fraquezas e da sua nova postura e posicionamento, com a qual o grupo ganhou novos olhares para as situações que vivenciam e puderam ampliar e estreitar relações de apoio.

Desta maneira, a partir do que foi apresentado, podemos perceber que a empatia não é uma prática que ocorre gerando benefícios apenas a uma outra pessoa, mas que também deve ser considerada como um cuidado consigo mesmo, que pode acontecer a partir do contato com o outro. E é esse cuidado que também servirá de base para permitir relações mais saudáveis e uma sociedade mais inclusiva no lidar com as diferenças.

 

REFERÊNCIAS

Olsen, B. O vínculo agressor/vítima em casos de bullying sob a perspectiva da psicologia analítica. 2016. PDF disponível em https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/48223 [acessado em 15 de maio de 2018]

Fordham, M. A criança como indivíduo. São Paulo. Pensamento-Cultrix, 1994. [acessado em 15 de maio de 2018]

Pereira, N. C. Empatia: uma (des)construção teórica e clínica. 2014. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, São Paulo. [acessado em 10 de maio de 2018]

Gomes, A. C. Contribuições da psicologia analítica à psicologia e psicoterapia infantil. 2017. PDF disponível em http://ipacamp.org.br/2017/07/14/contribuicoes-da-psicologia-analitica-a-psicologia-e-psicoterapia-infantil/ [acessado em 10 de maio de 2018]