Bullying nas escolas: isso é coisa séria!

jun 25, 2018

 

Escrito por Thalita Sturari

 

Uma pesquisa realizada pela ONU no ano de 2017 com 100 mil crianças e jovens de 18 países, mostrou que em média, metade deles foi vítima de algum tipo de bullying, sendo que o Brasil é o quarto nesta lista, apontando que cerca de 43% dos estudantes entre 11 e 12 anos já passaram por isso. Em outras palavras, quase que uma em cada duas crianças brasileiras sofrem bullying na escola – e quais serão as consequências disso?

 

Afinal, o que é o bullying?

 

O termo deriva da palavra “bull” do inglês, que significa touro, e faz referência ao comportamento do tipo “valentão”, que envolve agressões, ameaças e/ou humilhações a outra pessoa, muitas vezes mascaradas como sendo apenas uma “brincadeira”. Este tipo de comportamento foi primeiro identificado pelo psicólogo norueguês Dan Olweus em 1978, que constatou que a maioria dos adolescentes que apresentavam tendências suicidas já havia sofrido algum tipo de bullying e que, portanto, era urgente estudá-lo e combatê-lo.

O bullying é, então, um tipo de violência exercida por uma ou várias pessoas, de maneira continuada, que tem por objetivo intimidar ou agredir a vítima, que na maioria das vezes é incapaz de se defender. Esta violência pode ser do tipo verbal, física, psicológica, sexual e até mesmo virtual (o chamado cyberbullying). Alguns exemplos de bullying mais comumente praticados são:

  • Colocar apelidos, ofender, xingar, fazer gozações, fazer piadas sobre a vítima, sua família, religião, etnia, sexualidade e/ou aparência;
  • Bater, chutar, empurrar, ferir, beliscar, irritar, ameaçar;
  • Roubar ou destruir pertences;
  • Humilhar, ridicularizar, excluir, isolar, desprezar, chantagear, intimidar, perseguir, fazer intrigas ou fofocas;
  • Abusar, violentar, assediar;
  • Realizar qualquer uma das ações citadas acima de maneira virtual, através das redes sociais, computador ou celular;

 

Então quais são as consequências?

 

O que a princípio pode parecer uma simples brincadeira ou piada, pode ter sérias consequências, tanto para aqueles que sofrem com este tipo de agressão, quanto para os que a praticam. A consequência imediata para as vítimas é o sofrimento, que pode envolver sentimentos de tristeza, humilhação, insegurança, vergonha, medo e raiva. A médio e longo prazo, efeitos comuns do bullying são baixa autoestima, isolamento, dificuldade de concentração, queda no rendimento escolar, ansiedade, depressão, estresse, agressividade, transtornos alimentares como anorexia e bulimia e, em casos mais graves, tentativas de homicídio ou suicídio. Muitas dessas consequências emocionais se instalam de maneira tão arraigada que poderão necessitar de apoio psicológico e/ou psiquiátrico e levar anos para serem superadas.

Os agressores também tendem a sofrer consequências negativas de sua conduta autoritária, como o distanciamento dos colegas, a falta de adaptação e o uso da violência como forma de poder, contribuindo para a perpetuação desse ciclo. Por outro lado, existe também uma tendência de valorização daquele que comete o bullying, que é muitas vezes visto como sendo corajoso, valente e popular.

Apesar de grande parte dos alunos não serem agressores, eles podem acabar incentivando este comportamento quando dão risada das ações do agressor, concordam com as ofensas e apelidos que colocam. Mesmo que não se envolvam com o bullying, acabam sendo espectadores da violência na medida em que a presenciam, sendo comum que se calem por medo de serem as próximas vítimas.

Dessa forma, cresce o sentimento de poder do agressor sobre as vítimas e sua popularidade  – e suas chances de continuar cometendo bullying aumentam. É por isso que os espectadores também são considerados de extrema importância no cuidado e prevenção ao bullying.

 

O que podemos fazer?

 

O primeiro passo é identificar que o bullying está acontecendo, o que pode ser uma tarefa complicada, já que as vítimas do bullying podem não contar quando a agressão está acontecendo, seja por vergonha ou medo do que pode acontecer – já que, por vezes, devido ao eventual despreparo dos profissionais da educação, as vítimas podem acabar sendo injustamente culpabilizadas.

Por isso, é muito importante que os professores e demais profissionais da escola estejam sempre atentos aos seus alunos, pois existem alguns sinais que podem ajudar a identificar estas agressões. Alguns comportamentos típicos de uma vítima de bullying são: desinteresse pela escola, faltas contínuas, queda do rendimento escolar, isolamento, negação em participar de atividades, dificuldade de aprendizagem, melancolia, apatia, queixas de dores diversas.

Já os alunos que praticam o bullying costumam apresentar algumas características em comum, como: querer ser o mais popular, sentir-se poderoso, ofender os colegas, agressividade, intolerância a opiniões diferentes da sua, tirar sarro excessivamente, envolver-se em brigas constantes, etc. É importante ressaltar que estes comportamentos isoladamente não são suficientes para afirmar que o bullying esteja acontecendo; no entanto, indicam que há uma desarmonia e é necessário investigar a fundo a questão.

Uma vez constatado o bullying, é de extrema importância que sejam tomadas as medidas necessárias para que as agressões cessem, tendo-se em conta o cuidado com a não perpetuação do ciclo de violência a partir da forma com que a questão é abordada. Ouvir o que o agressor tem a dizer e entender as razões por trás da violência é fundamental. Existem diversos motivos que podem levar alunos a cometer o bullying, normalmente relacionados com as experiências que viveram, seja no ambiente familiar, na comunidade ou mesmo na escola. Em grande parte dos casos, os próprios agressores já foram vítimas de algum tipo de violência e aprenderam a solucionar os problemas de uma maneira agressiva. Daí a importância de acolher esse aluno e entender o que o leva a agir de maneira a causar sofrimento em outra pessoa, para depois pensar em soluções que o ajudem a lidar com suas questões de outra maneira.

Se presenciarmos uma agressão ou identificar sinais de que ela possa estar ocorrendo, seja em casa ou na escola, devemos procurar conversar com a criança ou adolescente para saber o que realmente está acontecendo e buscar ajuda caso necessário. O diálogo é fundamental.

 

Qual é o papel da escola?

 

Apesar de o bullying não ser exclusividade das escolas, este continua sendo o lugar de sua maior expressão. É importante dizer que a escola é responsável por proteger seus alunos, e se o bullying for identificado, cabe aos seus profissionais contatar os pais das crianças e adolescentes envolvidos e, caso necessário, acionar os órgãos de proteção à criança e ao adolescente.

De acordo com a Lei de número 13.185/2015, é dever da escola: “promover medidas de conscientização, prevenção e combate a todos os tipos de violência, com ênfase nas práticas recorrentes de intimidação sistemática (bullying), ou constrangimento físico e psicológico, cometidas por alunos, professores e outros profissionais integrantes de escola e de comunidade escolar”. Também cabe a ela “assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e à intimidação sistemática (bullying)”. Seguindo essas medidas podemos reduzir a prática do bullying e minimizar seus efeitos tão prejudiciais às crianças e adolescentes.

Caso o bullying aconteça dentro da sala de aula, a intervenção precisa ser imediata. O professor deve ser o primeiro a mostrar e dar o exemplo – e conversar sobre o bullying com os alunos é uma alternativa eficaz para começar a pensar sobre esse problema e evitar que aconteça futuramente.

Uma das frentes de atuação do Núcleo Espiral é o chamado programa Aprove, com ações executadas em escolas públicas da cidade de São Paulo, trabalhando a prevenção do bullying sem necessariamente abordar o tema de forma direta. Através de atividades que estimulam a tolerância entre os alunos e profissionais, o respeito às diferenças, atividades cooperativas e o reconhecimento e estimulação de atitudes de liderança positiva entre os alunos, atitudes de violência como o bullying são desencorajadas e tendem a diminuir de frequência, podendo mesmo cessarem por completo.

O programa mostra um dos caminhos possíveis para que este tema seja tratado nas escolas de forma acessível e transformadora com os alunos e professores, mas várias outras atitudes podem ser tomadas pelas instituições, inclusive de forma autônoma.

Outros caminhos possíveis passam pela exposição do tema do bullying através de campanhas, debates e até exibição de filmes – sempre incluindo os professores nessas campanhas. São vários os filmes que tocam nesse assunto; listamos aqui algumas opções mais citadas recentemente: Extraordinário (2017), The Mask We Live In (2015), Meninas Malvadas (2003), Bang Bang você morreu (2002).

 

Referências bibliográficas

Ballone GJ – Bullying – a maldade das crianças. in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.net, revisto em 2015.

FANTE, Cleo. 2005. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2ª edição. Campinas. Editora Versus, 224 p.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Cartilha: Bullying – justiça nas escolas. 1ª ed. Conselho Nacional de Justiça. Brasília, 2010.  Disponível em:

https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/glossarios-e-cartilhas/cartilha_bullying.pdf

https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/bullying-um-desafio-as-escolas-seculo-xxi.htm

Lei 13.185/2015. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13185.htm